CONHECIMENTO, COMPETÊNCIA E PERIGO NAS INFORMAÇÕES SOBRE A SAÚDE DOS CABELOS

O momento atual nos mostra algumas mudanças de valores que me parecem estranhas. Para ilustrar essa questão vou dar o exemplo dos formadores de opinião. Cresci com a ideia de que formadores de opinião são pessoas com conhecimento suficiente para justificar, através de uma argumentação consistente, pautada em uma formação sólida e também na vasta experiência que, além de o tornar um expert, o torna uma referência em um tema.

Em seu livro a Civilização do Espetáculo, Mario Vargas Llosa traz a discussão sobre o rebaixamento cultural que parece tomar o mundo e sobre as mudanças de valores quanto ao que tem valor real e aquilo que é efêmero e, por conta disso, tem fundamentos instáveis, pouco consistentes.
Para ilustrar essa questão, hoje mesmo estava com um motorista de Uber que, por gostar muito de música, fez críticas incisivas aos novos “estilos” da música sertaneja que perderam não apenas sua beleza melódica e poética, típica do sertanejo original, mas também a sua sustentabilidade como forma de arte.
Sou saudosista com algumas coisas, mas não com tudo. Se pegarmos um estilo de musica mais tradicional, como o jazz, ele também evolui. E, ainda que não esteja, se é que um dia esteve, nos TOP # das listas de mais ouvidas, parece conseguir o feito de manter sua qualidade, ainda que ganhe traços da modernidade. Consigo ouvir Trombone Shorty ou Jamie Cullum com o mesmo prazer que ouço John Coltrane ou Frank Sinatra.
As músicas de hoje são feitas para durar uma estação. Quando muito. Letras fáceis, decoráveis, com apelos para as paixões frívolas e efêmeras. Aqui também entra o contexto da ostentação a qualquer custo, os colares de ouro, os relógios de griffe, as roupas de alfaiataria, os carrões e, por incrível que pareça, a desprezível falta de respeito às mulheres (isso vale também para a música pop americana).
Tenho a impressão que qualquer um que consiga um investidor que o ajude a comprar tratamentos estéticos e vestimentas um pouquinho melhores é capaz de transformar pouco talentosos em ídolos de multidões. Se souber berrar como um cabrito que tomou um chute nas partes baixas, mais fácil ainda.
Comecei a escrever este texto porque tenho visto muita gente despreparada que está dando certo. Mas a grande maioria dos que deram certo não tem consistência. Se apertar, não sai nada de dentro. O que os torna descartáveis como uma música da Anitta.
Isso me preocupa. Não me causa inveja, como já vi gente dizer. Me sinto responsável, por mim, por meus filhos, pelos meus pacientes, por meus alunos e por aqueles que se aproximam de mim em minhas redes sociais. Isso inclui este blog e seus leitores.
Quando vejo alguns profissionais colocando os pés pelas mãos para ter cada vez mais seguidores em redes sociais, tendo uma linha de crescimento quase que vertical (um crescimento sem alicerce) e quando sei que ainda estão imaturos para o mercado, sinto aproximar o risco. Risco para o próprio profissional e risco para o cliente ou paciente destes.
Já estive diante de várias “estrelas” das áreas mais variadas que sofriam do efeito Dunning-Krugger. Para quem nunca ouviu falar de efeito Dunning-Krugger, abaixo vai uma explicação tirada da Wikipedia: O efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros, Estas pessoas sofrem de superioridade ilusóriaHá muitas dessas estrelas na Tricologia e na Terapia Capilar. Pessoas que fazem cursos de dias, horas, semanas e que se colocam como se tivessem um expertise de um Prêmio Nobel. Certos tipos fazem até pós graduação, mas com a empáfia de que estão ali apenas pelo certificado, pois, por eles, aquele tempo na universidade é a mais pura perda de tempo.
Alguns, sequer se preparam em cursos de curta duração. Passam a falar sem parar nas redes sociais. Seus estilos de comunicação os ajudam e algumas empresas começam a procura-los para presentea-los com produtos e serviços. E, mesmo que não tenham lido uma linha sobre um determinado tema, pelo simples fato de que ganham produtos de uma área específica, vou citar o exemplo de cosméticos, começam a papagaiar bobagens sem fundamentos nas redes sociais. Penso que, se querem ser referências de fato, consistentes e sustentáveis no mercado, por que não estudam para isso? Para se manter no “topo”. Será porque o sucesso efêmero os mostra que estudar é uma balela, que não precisam disso?
A questão é que tenho visto esses pseudo-especialistas, autodenominados formadores de opinião, colocando a vida de muita gente em perigo. Há tempos isso tem acontecido. A febre do Xampu Bomba, que surgiu há alguns anos atrás, nadou de braçada na mão desses sábios da internet. Mas há temas mais graves aparecendo. Quem sabe em um outro momento eu até escreva sobre eles. Antes disso, é importante lembrar que os pseudo-especialistas podem ser identificados por práticas inovadoras (normalmente sem base científica), descobertas milagrosas ou, até mesmo, por fomentar práticas de risco por leigos.

Por isso, peço atenção aos leitores desse blog. Aos que leem porque procuram informações para cuidarem de seus problemas capilares, fiquem atentos às pessoas que prometem demais. Aos que trabalham na área, a atenção é para que conheçam seus limites, questionem-se constantemente sobre suas capacitações e como podem fazer para melhora-las, e, sobretudo, sejam humildes.

 

Ainda para aqueles que querem seguir pessoas que realmente tenham conhecimento de boa qualidade e com fontes confiáveis para compartilhar, procurem sobre as formações e curriculuns desses profissionais. Eu mesmo já disse que o conhecimento é horizontal e acessível a todos nos dias atuais. Mas saber triar fontes fidedignas e que possam manter o máximo de neutralidade nas informações que divulgam é para poucos, mas é fundamental.